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A VONTADE DE SE RELACIONAR COM O MUNDO

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

A criança não inicia sua vida na palavra. Sua primeira forma de comunicação acontece no corpo. Antes de dizer o que deseja, ela aponta, chora, estica os braços, se encolhe, se afasta, se aproxima. Cada gesto carrega uma intenção e inaugura uma forma de relação com o mundo. O corpo funciona como a primeira ponte entre aquilo que acontece dentro da criança e aquilo que existe fora dela. Nele, aparecem o desejo, o desconforto, a curiosidade, a alegria e o espanto. O gesto se torna a primeira forma de linguagem, ainda sem palavras, mas profundamente carregado de sentido.

 

O corpo conecta sensação e objeto, intenção e ação. Quando algo desperta interesse, o corpo se move em direção ao que deseja. Quando algo provoca incômodo, o corpo reage. Cada movimento organiza uma experiência de comunicação. Nesse momento da vida, a linguagem já está presente mesmo antes da fala. O olhar que procura alguém, a mão que aponta, o corpo que se inclina em direção a um objeto ou se afasta de algo que incomoda revelam que a criança já participa de um campo de significados. Ela já conversa com o mundo, ainda que as palavras não tenham aparecido.

 

Com o tempo, a oralidade surge. A palavra não substitui o corpo, ela organiza aquilo que o corpo já dizia. A fala amplia a capacidade de comunicação e permite nomear aquilo que antes aparecia apenas como gesto ou reação. Onde antes havia um apontar, passa a existir um dizer. Onde antes havia um choro, passa a existir uma explicação possível. A linguagem ganha uma nova forma, mas a experiência que a originou continua presente. Corpo e oralidade pertencem ao mesmo campo relacional e expressam a mesma vontade de encontro com o outro e com o mundo.

 

A linguagem não nasce da técnica, nasce da relação.

Ela aparece quando existe algo a dizer, quando existe alguém a quem dizer, quando o desejo de encontro pede passagem. Por isso, o corpo continua sendo parte da linguagem mesmo depois que a palavra aparece. O gesto acompanha a fala, o olhar organiza o diálogo, o movimento expressa aquilo que a palavra ainda não consegue alcançar. A linguagem se constrói como um campo vivo de expressão.

 

Ao longo do desenvolvimento infantil, porém, um processo sutil começa a acontecer. Quando a criança aprende a falar, muitos adultos passam a concentrar a expressão apenas na palavra. O choro recebe a frase “você já sabe falar”, o movimento encontra pedidos constantes de controle. O gesto passa a ser interpretado como excesso ou desorganização. A fala assume centralidade como forma legítima de expressão.

 

Com o passar do tempo, a escrita ocupa um lugar ainda mais valorizado. A escola, muitas vezes sem perceber, reforça essa organização hierárquica entre as linguagens. A palavra escrita ganha importância crescente enquanto o corpo, o gesto e o movimento passam a ocupar um espaço menor. A expressão corporal perde presença justamente no momento em que a linguagem escolar começa a se consolidar.

 

A potência educativa aparece em outra direção. Surge quando as linguagens convivem. Corpo, fala, desenho, escrita, brincadeira e silêncio formam um conjunto de possibilidades expressivas que participam da construção do pensamento. Cada linguagem oferece uma forma particular de organizar a experiência. O corpo continua dizendo coisas que a palavra ainda não alcança, a brincadeira organiza relações e experiências que ainda não encontram lugar na escrita, o desenho registra percepções que ainda não encontram tradução verbal.

 

Essa compreensão transforma o modo de olhar para a alfabetização.

A escrita não inaugura a linguagem, ela prolonga um movimento que começou muito antes. A criança chega à escola já participando de uma complexa rede de linguagens que envolve gestos, sons, movimentos e interações. Quando essas linguagens continuam vivas, a escrita aparece como expansão da experiência. Quando perdem espaço, a aprendizagem se aproxima de uma prática técnica.

 

A educação ganha profundidade quando todas as linguagens ocupam o mesmo nível de dignidade. O corpo permanece ativo mesmo quando a palavra se organiza. A oralidade continua presente mesmo quando a escrita aparece. A escrita nasce

como continuidade de um processo de expressão que começou na relação da criança com o mundo.

 

Antes de ensinar letras, existe uma pergunta essencial: o que move a criança em direção ao mundo? A alfabetização começa exatamente nesse movimento, na vontade de relação que leva a criança a apontar, perguntar, observar, imaginar e comunicar aquilo que vive. É nesse campo de experiências que a linguagem se desenvolve e que a escrita encontra sentido.

 

 

Essa reflexão aparece de forma mais aprofundada no curso Ler o mundo: a alfabetização que começa antes da letra. Ao longo da formação, exploro como as diferentes linguagens que atravessam a infância – corpo, gesto, fala, brincadeira, desenho e escrita – participam do processo de alfabetização e ajudam o professor a compreender que a relação da criança com o mundo começa muito antes da letra aparecer no papel.

 
 
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