O LUGAR DA TECNOLOGIA NA ESCOLA
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Dois anos depois de publicar A Geração Ansiosa, Jonathan Haidt diz, em novo TED, que hoje está mais preocupado do que quando escreveu o livro. Sua atenção deixou de estar concentrada apenas nos impactos das redes sociais sobre a saúde mental e agora se volta para algo ainda mais amplo: a maneira como as tecnologias estão ocupando espaços que, por muito tempo, pertenceram às relações humanas.
Concordo com boa parte do que ele apresenta. Ainda assim, enquanto ouvia sua palestra, minha cabeça caminhava para outro lugar.
Sempre que discutimos tecnologia na educação, a conversa costuma girar em torno das ferramentas. Tablet ou livro. Inteligência artificial ou professor. Computador na sala de aula ou caderno. Essas discussões têm seu valor, mas permanecem na superfície porque deixam intacta a pergunta que realmente orienta todas as outras. O que entendemos por aprender?
A resposta que damos a essa pergunta muda completamente o lugar da tecnologia na escola.
Se aprender significa acessar informação, organizar conteúdos e responder corretamente às questões, faz sentido imaginar que uma máquina possa realizar boa parte desse trabalho, pois oferece respostas rápidas, reúne uma quantidade quase infinita de dados e executa tarefas com uma eficiência impressionante.
Agora, se aprender significa construir linguagem, produzir sentido, lidar com o conflito, desenvolver sensibilidade, ampliar repertório e descobrir formas de viver com outras pessoas, a conversa muda de direção. Nenhuma dessas dimensões nasce do acúmulo de informações e aparecem nas relações.
É por isso que sempre me causa estranhamento quando alguém pergunta se a inteligência artificial substituirá os professores. A pergunta parte da ideia de que ensinar consiste em transmitir conhecimento. Nunca enxerguei a escola dessa maneira.
Uma boa escola organiza encontros. Encontros entre crianças, entre crianças e adultos, entre ideias diferentes, entre histórias de vida e entre aquilo que uma criança já conhece e aquilo que ainda não consegue nomear. O conhecimento aparece nesse movimento. Não chega pronto.
Penso que foi esse o maior equívoco das últimas décadas. Em muitos momentos, imaginamos que a tecnologia poderia melhorar a educação simplesmente porque conseguia entregar mais conteúdo, mais velocidade e mais personalização, só que a escola nunca existiu para competir com a velocidade, e sim para formar pessoas.
Quando uma criança espera sua vez de falar na roda, quando tenta convencer um colega de uma ideia, quando muda de opinião depois de ouvir alguém, quando observa uma formiga durante vários minutos no quintal, quando um professor percebe um silêncio diferente e interrompe a aula para conversar, algo importante está acontecendo. Nenhuma dessas situações cabe em um relatório de desempenho nem produz gráficos bonitos. Mesmo assim, são elas que permanecem na vida.
A tecnologia pode participar de tudo isso e eu não tenho qualquer dificuldade em afirmar isso. Uso inteligência artificial, acompanho pesquisas, gosto de conhecer ferramentas novas. O problema nunca esteve na tecnologia. O problema começa quando ela ocupa um espaço que pertence às relações e quando passamos a acreditar que eficiência e formação humana caminham pela mesma medida.
A escola não perdeu espaço para a tecnologia, mas para uma determinada ideia de tecnologia que olha para a educação como uma sequência de tarefas individuais, mediadas por dispositivos cada vez mais inteligentes, enquanto o trabalho mais delicado da escola continua acontecendo entre pessoas.
Jonathan Haidt termina sua palestra defendendo que precisamos recuperar a infância. Gosto dessa expressão, porém, acrescentaria uma observação: recuperar a infância não significa diminuir a presença das telas apenas para voltar ao passado, mas construir lugares onde as crianças continuem encontrando adultos disponíveis, amigos de verdade, livros que pedem tempo, brincadeiras que não seguem roteiro e professores capazes de perceber aquilo que nenhuma máquina consegue medir.
Sempre achei que esse fosse o melhor argumento para defender a escola. Depois de ouvir Haidt, continuo pensando exatamente a mesma coisa.


