DA FORÇA DOS MÚSCULOS À FORÇA DO CORAÇÃO
- 25 de mar.
- 3 min de leitura
O QUE A GESTÃO ESCOLAR AINDA PRECISA APRENDER

O publicitário Walter Longo tem uma frase que não sai da cabeça: no passado distante, nossa competência era avaliada pelos músculos. Depois, pelo cérebro. E, agora, cada vez mais, pelo coração.
Ele usa três termos para descrever essa jornada: hard skills, soft skills e heart skills. Os dois primeiros já fazem parte do vocabulário de qualquer educador: sabemos que não basta dominar o conteúdo (hard) se não soubermos nos relacionar (soft). Mas o terceiro, o heart, ainda engatinha nas nossas conversas. E talvez seja justamente aí que a gestão escolar esteja mais atrasada.
O diretor que está de costas
Pense no diretor que você conhece (ou que você é). Quantas horas da semana ele passa imerso em planilhas de frequência, relatórios para a mantenedora, e-mails institucionais, plataformas de gestão? Quantas horas ele passa, de fato, presente com as pessoas?
Não se trata de culpa, mas de uma armadilha sistêmica: a burocracia foi crescendo silenciosamente e foi ocupando exatamente o espaço que deveria ser reservado à escuta, ao olhar, ao vínculo.
A família que chegou e não foi vista
Há uma cena que se repete em muitas escolas. A mãe atravessa o portão com uma preocupação, não necessariamente um problema grave, às vezes, só uma dúvida, uma ansiedade. Ela chega à secretaria, é orientada a agendar. Agenda. Espera. Quando finalmente senta na frente de alguém, sente que tem quinze minutos, que há uma fila invisível atrás dela, que a conversa precisa ser objetiva. Ela sai com as informações que precisava, mas não se sentiu compreendida.
Há uma verdade simples e devastadora nessa cena: o ser humano prefere mais ser compreendido do que amado. A família não quer que a escola resolva tudo, quer sentir que alguém, do outro lado, realmente a viu.
Isso é heart skill. E não se aprende em nenhum curso de gestão.
O que a inteligência artificial vai liberar, se deixarmos
A boa notícia é que as ferramentas estão mudando. A inteligência artificial já começa a assumir parte daquela burocracia que engole o tempo do gestor: geração de relatórios, análise de dados de desempenho, comunicados padronizados, registros administrativos.
Mas há um risco silencioso: usar esse tempo liberado para… mais burocracia. Para mais reuniões, mais eficiência operacional.
A pergunta que a gestão escolar precisa se fazer não é como faço mais com menos tempo, mas sim o que faço com o tempo que a tecnologia me devolve?
A resposta que o coração sugere: estar presente. Circular pelos corredores sem uma pauta. Ouvir um professor que está no limite sem já ter a solução pronta. Receber uma família com o mesmo cuidado que você gostaria de ser recebido num momento de vulnerabilidade.
Liderar com o coração não é fragilidade
Existe um equívoco antigo no campo da liderança de que emoção e gestão são territórios separados, e que misturá-los enfraquece a autoridade. Um diretor que chora com a história de um estudante seria "emotivo demais". Uma coordenadora que interrompe a reunião para perguntar como um professor está se sentindo seria "fora de foco".
Mas o que estamos descobrindo é que essa separação nunca foi real, foi uma construção. E que nos custou muito.
As escolas que mais transformam vidas não são necessariamente as que têm os melhores índices ou as melhores estruturas, são as que têm gestores que sabem o nome de cada funcionário, que conhecem as histórias das famílias, que criam um ambiente onde as pessoas – adultos e crianças – sentem que pertencem.
Isso não acontece por decreto. Acontece por presença, por escuta, por coração.
Uma competência que não vem no currículo
A formação de gestores escolares no Brasil ainda é muito centrada nas hard skills da administração educacional e nas soft skills da comunicação e do trabalho em equipe. São importantes, mas chegou a hora de incluir, com seriedade, o desenvolvimento das heart skills – essa capacidade de se importar de verdade, de ser genuinamente curioso sobre o outro, de criar vínculos que sustentam a confiança mesmo nos momentos de conflito.
Não é sobre ser bonzinho, é sobre ser humano.
E, numa época em que as máquinas estão aprendendo a pensar, talvez o maior diferencial de um líder escolar seja, finalmente, aprender a sentir.


