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O ESSENCIAL É O QUE INVENTA

  • Marcelle Berton
  • 12 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura


Vivemos em uma época em que os brinquedos parecem fazer tudo sozinhos. Luzes, sons, movimentos programados, narrativas prontas, personagens com roteiros pré-definidos. A criança aperta um botão e assiste a história acontecer diante dela. Nada precisa ser imaginado, nada precisa ser inventado. A promessa do mercado é sedutora: um brinquedo completo, autossuficiente, atento, responsivo. Mas o que se apresenta como riqueza tecnológica costuma esconder um empobrecimento simbólico profundo.

O brinquedo que brinca sozinho empobrece o pensamento da criança porque dispensa aquilo que a infância tem de mais potente: a capacidade de transformar qualquer coisa em mundo.

 

A indústria do brinquedo vende pré-narrativas, mundos fechados, personagens engessados e funções delimitadas. A criança não cria o universo, apenas o consome. Não constrói a história, apenas segue o roteiro. Essa lógica produz um pensamento pré-formatado, em que a imaginação se adapta ao objeto, e não o contrário. O brinquedo pronto parece oferecer infinitas possibilidades, mas, na verdade, é sempre a mesma. Ele repete, demonstra, anima. Não abre espaço para aquilo que só a criança pode fazer: projetar seu mundo interno sobre o objeto e transformá-lo a partir de si.

 

O quarto cheio de brinquedos prontos se torna, paradoxalmente, um quarto vazio de brincar. Há excesso de coisas e escassez de sentido. O volume de objetos produz dispersão, não criação. Cada brinquedo determina como deve ser usado, cada narrativa define como deve ser vivida. A criança circula entre possibilidades empacotadas, mas não habita nenhuma. O excesso material produz pobreza simbólica porque impede que o brincar nasça do gesto, e não da mercadoria.

 

Na contramão desse empobrecimento, estão os brinquedos desestruturados. Galhinhos, pedrinhas, folhas, panos, caixas, cordas, pedaços de madeira, tecidos soltos, água, areia, poças. Objetos sem função definida, materiais que não dizem o que devem ser. Elementos brutos que esperam pelo gesto da criança para ganhar sentido.

Esses materiais não trazem histórias prontas, eles convidam histórias. Não oferecem mundos prontos, e sim possibilidade. Neles, a criança não adapta seu pensamento, ela o expande.

 

Os materiais desestruturados são patrimônio da infância porque devolvem à criança a autoridade simbólica sobre o que brinca. O galhinho pode ser varinha, lança, serpente, microfone, ponte, boneco, remo. A caixa pode ser casa, carro, navio, castelo, túnel. A poça pode ser mar, lava, laboratório, portal. O mesmo objeto, infinitamente reconfigurado, produz narrativas sempre inéditas. É o contrário do brinquedo programado: ali, quem programa é a criança.

 

Brincar com o mundo, e não apenas com produtos, devolve à criança a percepção de que a imaginação é ilimitada. Quando nada está decidido, tudo é possível. Os objetos simples funcionam como espelho simbólico: recebem aquilo que a criança projeta. Por isso são tão poderosos, pois não competem com a imaginação, se oferecem a ela. São matéria-prima da criação, abrem espaço para que o pensamento se expanda em todas as direções.

 

Nesse contexto, o essencial sempre é mais vivo que o excessivo. Quanto mais sofisticado o brinquedo, menos espaço para a imaginação. Quanto mais bruto o material, mais potente a brincadeira. Quando a criança brinca com o mundo real, aprende a transformar o ordinário em extraordinário. Aprende que não precisa de muito para inventar tudo. Que a criatividade nasce do encontro entre corpo, objeto e desejo, não do consumo de estímulos.

 

Defender os brinquedos desestruturados é preservar a própria infância. É garantir que a criança tenha acesso ao espaço interno onde a imaginação cria, sustenta, reorganiza e reinventa. Não se trata de nostalgia, mas de potência. Trata-se de oferecer menos objetos e mais mundos. Menos roteiro e mais criação. Menos consumo e mais invenção. Numa sociedade que oferece brinquedos que fazem tudo, proteger aquilo que ainda permite imaginar é proteger aquilo que ainda permite existir.

 
 
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