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FAZ DE CONTA QUE SOU GRANDE

  • 31 de jul.
  • 6 min de leitura

Cuidar da pele sempre foi uma conversa que surgia na adolescência ou na vida adulta. Aparecia diante da acne, do ressecamento, da exposição ao sol ou, muitos anos depois, dos primeiros sinais do envelhecimento. Porém, uma sequência de reportagens chamou a atenção por mostrar que essa conversa mudou de lugar. Hoje, ela acontece cada vez mais cedo, entre meninas de 8, 9 ou 10 anos.

 

À primeira vista, esse movimento parece dizer respeito apenas ao crescimento do mercado de skincare infantil. Mas, ao olhar mais de perto, percebemos outra coisa: o que está em transformação não é somente o consumo de cosméticos, a infância começa a incorporar preocupações que, até pouco tempo atrás, pertenciam ao universo adulto.

 

A pesquisa do Grupo Boticário ajuda a enxergar esse fenômeno com mais nitidez, reunindo dados sobre hábitos de skincare, influência das redes sociais e comportamento de meninas brasileiras de 8 a 14 anos. Os números impressionam, mas o aspecto mais interessante aparece quando deixam de ser lidos como estatísticas sobre consumo e passam a ser entendidos como sinais de uma mudança cultural que atravessa famílias, plataformas digitais, marcas e, inevitavelmente, a própria educação.

 

Praticamente todas as meninas entrevistadas, 99%, já utilizam algum produto de skincare. Até aí, alguém poderia imaginar que se trata apenas de um novo hábito de autocuidado. Porém, o quadro muda quando a pesquisa mostra que 22% já usaram produtos com apelo anti-idade e que 43% compraram ou pediram produtos que não foram desenvolvidos para sua faixa etária. A influência das redes sociais ajuda a explicar parte desse movimento. Sete em cada dez meninas acompanham influenciadores de beleza e, entre aquelas que aprenderam sobre skincare com creators, 58% afirmam que gostariam de mudar a própria aparência. Quando essa aprendizagem acontece, principalmente, dentro da família, esse percentual cai para 32%.

 

E, aqui, a pesquisa se torna mais interessante, pois cada gráfico responde a uma pergunta específica, mas, quando eles começam a conversar entre si, surge uma história que não aparece em nenhum deles isoladamente. O desejo de mudar a própria aparência cresce conforme aumenta a influência das redes sociais? Em que momento da infância essa preocupação começa a ganhar força? As meninas passam primeiro a consumir produtos ou primeiro aprendem que existe algo em seu rosto que merece atenção? Quem ocupa hoje o lugar de maior influência: a família, os dermatologistas ou os creators de beleza? A própria pesquisa oferece pistas para essas respostas ao mostrar que a fonte de aprendizado faz diferença: meninas que aprendem sobre skincare, principalmente, com influenciadores demonstram maior desejo de mudar a aparência do que aquelas cuja principal referência é a família. Esse dado, sozinho, já desloca a discussão dos cosméticos para outro lugar. A pergunta deixa de ser quais produtos as crianças estão usando e passa a ser quem está ensinando as crianças a olhar para si mesmas.

 

A pesquisa por si só já seria suficiente para chamar atenção, mas, quando colocada ao lado de outras reportagens, ganha outra dimensão. A BBC mostra que muitas meninas já relacionam essas rotinas de cuidado à própria autoestima e à maneira como enxergam o próprio rosto. O The Atlantic revela que essa cultura já alcança crianças muito pequenas, levando dermatologistas a alertarem para o uso de produtos inadequados antes mesmo da adolescência. O The Hustle observa o mesmo fenômeno por outro ângulo e mostra que o mercado de skincare infantil cresce rapidamente porque a demanda aumenta em todo o mundo. Ao mesmo tempo, a indústria começa a reorganizar seus negócios para acompanhar essa geração. A Claire's, marca tradicionalmente associada ao público infantil e adolescente, deixou de pensar apenas em produtos e passou a investir em plataformas em que meninas produzem conteúdo, criam audiência e transformam consumo em expressão pública da própria imagem. A reportagem da Folha de S.Paulo mostra o desdobramento desse percurso anos depois. A Geração Z chega à vida adulta demonstrando preocupação crescente com o envelhecimento e impulsiona o aumento da procura por procedimentos estéticos preventivos, como a aplicação de toxina botulínica antes dos 30 anos.

 

Nenhuma dessas matérias explica completamente o fenômeno. Cada uma registra uma parte da história, mas, quando são colocadas lado a lado, deixam de parecer notícias independentes e começam a desenhar uma mesma mudança cultural. A pesquisa mostra onde ela começa e as demais ajudam a compreender para onde está caminhando. O assunto deixa de ser skincare, pois o que está em transformação é a própria ideia de infância e seu tempo.

 

A infância sempre foi marcada como um período relativamente protegido das preocupações que organizam a vida adulta. A relação com o corpo era marcada pela descoberta, pela brincadeira, pelo crescimento e passagem natural do tempo. Aos poucos, outra lógica começa a ocupar esse espaço. A infância passa a incorporar preocupações que pertenciam a etapas posteriores da vida. Antes mesmo da acne, chega o skincare, antes das primeiras rugas, aparecem produtos com retinol, antes mesmo do envelhecimento, cresce o interesse por ativos anti-idade. Alguns anos depois, a reportagem da Folha de S.Paulo mostra jovens recorrendo ao botox preventivo. A lógica permanece a mesma do começo ao fim: a solução passa a anteceder o problema.

 

Esse movimento conversa com uma característica marcante da sociedade contemporânea: desenvolvemos uma enorme capacidade de antecipar problemas, como prevenir doenças, planejar financeiramente ou reduzir riscos. Em muitos casos, antecipar significa cuidar melhor.  O problema é que esse movimento de antecipação começa a atravessar também esse tempo da vida, a infância, já tão atravessada em outros contextos: a pressão por desempenho, por produtividade, por exposição nas redes sociais e por uma aparência permanentemente administrada. Com o skincare infantil, a preocupação com o envelhecimento chega antes da juventude e a administração da aparência começa antes mesmo que a criança tenha vivido plenamente a relação com o próprio corpo.

 

A infância ocupa outro lugar, ela não existe para antecipar etapas da vida, e sim para viver plenamente o tempo em que a descoberta acontece pela primeira vez. É nesse período que a criança conhece o corpo, experimenta relações, brinca, imagina, cria hipóteses sobre o mundo e atribui sentido às próprias experiências. Antecipar deveria ser palavra proibida aqui. A infância perde parte da sua potência quando passa a ser vivida como preparação para uma etapa seguinte. Enquanto a sociedade acelera o futuro, a infância continua precisando de presente.

 

E, aqui, a discussão deixa de ser sobre maquiagem ou skincare, o problema não está em uma criança passar um creme no rosto, mas quando uma prática deixa de ser faz de conta. Uma criança de cinco anos brincando de maquiagem não está preocupada com rugas nem com a textura da própria pele, está inventando personagens. Pode ser uma cantora, uma médica, uma princesa, uma cientista ou qualquer outra pessoa que sua imaginação permitir. O objeto faz parte da brincadeira, mas não é o centro dela. O que importa é a possibilidade de experimentar outros mundos e outras formas de existir.

 

O brincar é a possibilidade da gente inventar a vida enquanto se vive a vida. Essa frase ajuda a compreender a diferença entre os dois movimentos. O brincar convida a criança a sair de si para experimentar possibilidades, enquanto que o skincare infantil faz o caminho inverso, convidando a criança a voltar continuamente para si mesma, observando, avaliando e administrando a própria imagem. No brincar, a pergunta é "quem posso ser hoje?", e a resposta muda a cada nova brincadeira. No skincare, a pergunta passa a ser "como eu estou?" ou "o que preciso melhorar em mim?". A atenção deixa de se dirigir aos personagens que a criança cria e passa a se concentrar no próprio rosto.

 

Por isso, a questão não é afirmar que as crianças brincam menos, já que muitas continuam organizando penteadeiras, gravando vídeos, fazendo "spa day" e imitando influenciadoras. À primeira vista, tudo isso pode parecer uma brincadeira, mas o que muda é o espírito da atividade. O faz de conta sempre permitiu suspender a realidade para inventar outras possibilidades. As rotinas de skincare aproximam a criança da realidade adulta, de seus protocolos, de suas preocupações e de suas expectativas.

 

A antecipação organiza a infância em torno do futuro. O brincar organiza a infância em torno do presente. Essa diferença ajuda a compreender por que a infância não pode ser pensada como uma etapa de preparação para a vida adulta. Ela possui valor em si mesma, é o tempo da descoberta, da imaginação, da criação e da construção de sentidos sobre o mundo. Quando uma menina brinca de ser médica, astronauta ou cozinheira, amplia o mundo que pode imaginar. Quando passa a dedicar parte desse mesmo tempo a administrar uma aparência que ainda nem teve oportunidade de amadurecer, outra lógica entra em cena. O skincare infantil não elimina o brincar, ele ocupa um espaço que antes pertencia à invenção, e esse deslocamento ajuda a explicar por que uma pesquisa sobre cosméticos acaba dizendo tanto sobre a infância contemporânea.

 

Um texto também publicado nesse blog discute uma pergunta proposta pelo futurista Kevin Kelly: como uma civilização transmite seu conhecimento de uma geração para outra? A resposta passava pela família, pela escola, pela convivência e por todas as experiências que permitem às crianças reconstruir, pouco a pouco, o mundo que receberam.

 

A pesquisa sobre skincare mostra que outro agente passa a participar dessa formação. Marcas, plataformas digitais, algoritmos e creators já não influenciam apenas escolhas de consumo, ajudam a definir quais assuntos chegam à infância, quais preocupações passam a ocupar esse tempo da vida e até a maneira como as crianças aprendem a olhar para o próprio corpo.

 

A pergunta, então, deixa de ser apenas como uma civilização transmite seu conhecimento e passa a incluir outra reflexão igualmente importante: quem passou a decidir qual conhecimento merece ser transmitido às crianças? A resposta a essa pergunta ajuda a compreender o fenômeno do skincare infantil. Mais do que isso, ajuda a compreender a infância que estamos construindo.

 
 
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