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FIGURINHAS REPETIDAS

  • 4 de jun.
  • 3 min de leitura

Estamos na temporada do álbum de figurinhas da Copa e, junto dela, circulam algumas situações que chamam atenção. Familiares comprando centenas de pacotes de uma vez, adultos organizando trocas sem a presença das crianças, figurinhas raras compradas diretamente pela internet, álbuns completados em poucos dias. Em muitos casos, as próprias crianças quase não participam do percurso que levou o álbum até ali. Pode isso, Arnaldo?

 

Existe boa intenção nesse movimento. Vontade de ver a criança feliz, de evitar frustração, ansiedade ou decepção. Os adultos carregam a sensação de que precisam resolver rapidamente aquilo que provoca desconforto nos filhos. Ainda assim, talvez valha observar o quanto algumas aprendizagens da infância aparecem justamente nos momentos em que as coisas não acontecem imediatamente.

 

O álbum de figurinhas não é apenas algo para ser completado, funciona como um espaço de convivência, negociação e persistência. Abrir pacotes repetidos e descobrir que ainda faltam muitas figurinhas faz parte da brincadeira. Procurar alguém para trocar, conversar sobre quais estão faltando, esperar o próximo pacote, tentar novamente depois de várias tentativas frustradas, tudo isso faz parte da construção daquele momento.

 

Existe uma quantidade enorme de aprendizagens acontecendo nessa brincadeira. A criança organiza coleções, compara números, observa sequências, identifica repetições, calcula quantas figurinhas ainda faltam e desenvolve estratégias para avançar no álbum.

 

Nas trocas, aprende a negociar, argumentar, avaliar possibilidades e perceber que uma relação precisa funcionar para os dois lados. Ao circular com outras crianças, amplia conversas, cria vínculos e participa de uma dinâmica coletiva que não pode ser completamente controlada.

 

O álbum mobiliza matemática, linguagem, memória, organização, convivência e autonomia de maneira viva, conectada ao desejo real da criança.

 

Quando uma criança tem um álbum de figurinhas, entra em contato com algo importante: a percepção de que nem tudo acontece na velocidade do desejo. Algumas conquistas exigem insistência, convivência e tempo. E, talvez, uma das maiores dificuldades da infância contemporânea esteja justamente na relação com o tempo.

 

As crianças vivem cercadas por respostas rápidas: o vídeo começa imediatamente, a compra chega em poucas horas, o desenho pula a abertura, o áudio pode ser acelerado, o jogo oferece recompensas constantes. A espera vai desaparecendo de muitos espaços da vida cotidiana. Aos poucos, cresce também a dificuldade de lidar com aquilo que demora, falha ou não acontece como esperado.

 

Nesse contexto, pequenas frustrações cotidianas ganham um valor importante: ajudam a criança a construir recursos emocionais para lidar com desejo, ansiedade, espera e persistência. Não porque a frustração seja algo bonito ou desejável em si, mas porque a vida não se organiza inteiramente em torno das nossas vontades imediatas. Aprender isso aos poucos, em situações pequenas e acompanhadas por adultos, costuma ser mais saudável do que encontrar esse limite apenas mais tarde, de maneira abrupta.

 

Por isso, o debate sobre o álbum de figurinhas talvez diga menos sobre consumo e mais sobre a relação que estamos construindo com a infância. O problema não está em comprar figurinhas para uma criança ou em ajudá-la a completar o álbum, o ponto aparece quando toda dificuldade passa a ser rapidamente eliminada, quando o adulto ocupa todos os espaços da negociação, da espera e da tentativa. Aos poucos, desaparecem oportunidades importantes de construir autonomia emocional.

 

Existe também uma questão interessante na própria lógica das coleções. Parte do encantamento do álbum nasce justamente daquilo que ainda falta. Existe expectativa, desejo, memória, conversa, tentativa. Existe um movimento acontecendo entre o começo e o álbum completo. Quando tudo é resolvido rapidamente, o preenchimento acontece, mas parte da construção simbólica daquela vivência se enfraquece.

 

Essa discussão aparece nas figurinhas, mas poderia aparecer em muitos outros lugares da infância. Acontece quando os adultos evitam qualquer espera, quando antecipam todas as soluções, impedem que a criança lide com pequenas dificuldades compatíveis com sua idade. Aos poucos, cresce uma relação mais frágil com o erro, com a demora e com aquilo que exige persistência.

 

Educar uma criança também envolve acompanhar desconfortos sem eliminar todos eles imediatamente. Significa ajudar a nomear frustrações, acolher sentimentos, construir recursos internos e mostrar que nem tudo precisa acontecer no mesmo instante em que é desejado.

 

Talvez o álbum de figurinhas continue despertando tanto interesse justamente porque ele ainda preserva algo raro: a possibilidade de desejar alguma coisa aos poucos, construir relações em torno desse desejo e perceber que algumas conquistas carregam mais significado quando existe participação real da criança no caminho percorrido até elas.

 
 
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