MEU PEQUENO CEO
- há 4 dias
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A escola sempre serviu a um projeto de sociedade. Essa afirmação pode parecer desconfortável, mas basta analisar um pouco a história para perceber que nunca existiu uma educação neutra. Em alguns momentos, seu papel era formar cidadãos alinhados aos interesses da Igreja, ou do Estado. Em outros, formar indivíduos disciplinados para o trabalho. Em outros, ainda, preparar sujeitos capazes de ocupar posições de liderança em uma economia cada vez mais competitiva. Cada teoria educacional, cada currículo, cada forma de organizar o tempo, o espaço e as relações dentro da escola carrega uma determinada visão de mundo e uma concepção de um sujeito. Quando escolhemos como ensinar, estamos escolhendo também que sujeito queremos formar. Nenhuma escolha pedagógica é inocente, educar é sempre uma forma de apresentar às novas gerações aquilo que consideramos importante para a vida em comum.
Da fábrica ao escritório
Durante a Revolução Industrial, a escola foi organizada à imagem das fábricas. O tempo era dividido em etapas rígidas, os estudantes eram agrupados por idade, os conteúdos, distribuídos em sequência e a disciplina, uma condição necessária para o funcionamento do sistema. A intenção era clara: formar trabalhadores capazes de se adaptar às exigências de um mundo industrial que dependia de ordem, repetição e previsibilidade. Hoje, costumamos olhar para esse modelo com certo distanciamento, pois aparece como símbolo de uma educação ultrapassada, excessivamente conteudista e pouco conectada às necessidades e interesses do presente.
As escolas mudaram, as salas ganharam novos formatos, surgiram ambientes flexíveis, espaços colaborativos, anfiteatros, pufes e arquiteturas inspiradas nas empresas de tecnologia. A linguagem também mudou: falamos em protagonismo, liderança, inovação, empreendedorismo e criatividade. O sonho vendido às famílias deixou de ser o do trabalhador disciplinado e passou a ser o do CEO. Formar gestores, empreendedores e futuros líderes para uma economia baseada em conhecimento, tecnologia e serviços.
O problema não está em desejar que crianças desenvolvam iniciativa, criatividade ou capacidade de liderança, a questão surge quando a educação passa a ser orientada, principalmente, pelas necessidades do mercado. Nesse caso, a escola continua definindo seu papel a partir de uma lógica externa a ela mesma. Continua preparando pessoas para ocupar funções previamente determinadas, em vez de criar condições para que compreendam criticamente o mundo que habitam e participem da sua transformação.
Quando o conhecimento vira propriedade
A educação passa, então, a ser vendida como um diferencial competitivo. Escolas prometem formar líderes, empreendedores, inovadores e profissionais preparados para ocupar posições de destaque em um mundo cada vez mais disputado. A escolha de uma escola deixa de estar relacionada ao tipo de convivência, de pensamento ou de comunidade que ela produz e passa a ser orientada pelas vantagens que pode oferecer no futuro. A educação se aproxima da lógica do mercado e assume o papel de um investimento capaz de gerar retornos individuais. A ideia de comunidade perde espaço para a ideia de distinção. A promessa não é mais participar de um mundo comum, mas conquistar um lugar privilegiado dentro dele. A própria noção de exclusividade ganha valor. Experiências exclusivas, oportunidades exclusivas, redes exclusivas, escolas exclusivas. Pouco a pouco, o conhecimento deixa de ser percebido como um patrimônio coletivo e passa a funcionar como um recurso que diferencia algumas pessoas das demais, os VIPs.
Quando isso acontece, a escola corre o risco de se afastar de uma das suas funções mais importantes. Em vez de ser um lugar de encontro entre diferentes histórias, perspectivas e modos de viver, passa a funcionar como um mecanismo de seleção e distinção social. O acesso ao conhecimento deixa de ampliar a vida coletiva e passa a servir, prioritariamente, à construção de vantagens individuais.
Mas, para que existe a escola? Se a entendermos como um espaço onde aprendemos a viver com os outros, a compartilhar perguntas, construir sentidos coletivamente e participar da vida comum, então, o conhecimento deve ocupar um lugar diferente: deixa de ser propriedade e volta a ser encontro.
Um novo excesso
Estamos chegando a um momento em que precisamos perguntar se a educação não está produzindo um novo excesso. A escola foi organizada para formar pessoas obedientes, em que a criança que seguia instruções, repetia conteúdos e se adaptava às regras era considerada uma boa aluna. Quando esse modelo começou a ser questionado, surgiram propostas que passaram a valorizar autonomia, protagonismo, liderança, criatividade e empreendedorismo. Houve ganhos importantes nesse movimento: as crianças passaram a ocupar mais espaço, a participar mais das decisões e desenvolver maior confiança em suas próprias capacidades. No entanto, toda transformação produz também novos desafios.
A criança aprende a defender sua opinião, aprende a argumentar, a se posicionar, a liderar, mas quem está ensinando essa criança a escutar? Quem está ensinando que uma conversa não é um espaço para vencer, mas para construir algo que não existia antes? Quem está ensinando que existem momentos em que compreender é mais importante do que convencer?
Essa questão ganha ainda mais relevância em uma cultura que transformou a opinião em patrimônio pessoal. As redes sociais reforçam diariamente a ideia de que cada indivíduo precisa construir sua própria audiência, sua própria narrativa e versão dos fatos. O conhecimento deixa de ser algo construído coletivamente e passa a funcionar como propriedade. Cada pessoa se torna dona das suas certezas e passa a defendê-las como quem protege um território. Estamos formando uma geração que aprendeu a ter opinião sobre tudo, mas que encontra cada vez menos oportunidades para ser transformada pela opinião dos outros. A conversa deixa de ser um espaço de construção coletiva e passa a funcionar como um espaço de afirmação individual. O objetivo já não é compreender melhor o mundo, mas proteger as próprias convicções.
Talvez seja por isso que a provocação sobre estarmos educando futuros CEOs seja tão importante. O problema não está no cargo, afinal, toda sociedade precisa de boas lideranças. O problema aparece quando a liderança se transforma no principal horizonte da educação. Uma sociedade não é composta apenas por líderes, mas também por pessoas capazes de viver juntas. E viver junto exige capacidades diferentes das que costumam aparecer nos discursos sobre sucesso, como escuta, disponibilidade para rever certezas, reconhecer que ninguém pensa sozinho, compreender que toda ideia ganha profundidade quando encontra outras ideias e perceber que o mundo não é feito apenas dos nossos desejos.
A escola moderna fala muito sobre protagonismo, mas chegou o momento de falarmos também sobre convivência, porque uma criança pode aprender a liderar uma equipe e, ao mesmo tempo, não conseguir lidar com a frustração de ser contrariada, pode aprender a defender suas opiniões e não conseguir escutar opiniões diferentes, ou desenvolver autoconfiança e, ainda assim, ter dificuldade para construir projetos coletivos. Esse é um dos paradoxos do nosso tempo: nunca falamos tanto sobre colaboração e, ao mesmo tempo, encontramos tantas dificuldades para conviver com quem pensa diferente. Escutar, negociar diferenças, lidar com limites e construir algo em conjunto são capacidades que raramente aparecem nos rankings, nas avaliações e nos discursos sobre sucesso, mas que definem a qualidade da vida em comunidade.
A escola precisa voltar a se perguntar se sua tarefa principal é formar indivíduos para ocupar posições ou formar pessoas capazes de participar do mundo. Quando pensamos a escola como um lugar de encontro, ela deixa de ser uma preparação para a vida futura e passa a ser um exercício permanente de convivência. Um espaço onde se aprende a pensar junto, a compartilhar dúvidas, a construir sentidos coletivamente e a ampliar a própria compreensão da realidade a partir do encontro com o outro.
A escola como verbo
Pensar a escola como verbo desloca completamente a discussão educacional, pois o centro deixa de estar nos métodos, nos resultados e nas estruturas e passa a estar nas relações. Escola passa a ser aquilo que acontece quando pessoas se reúnem para refletir sobre a realidade que compartilham. Existe na conversa, na escuta, na construção de significados e na capacidade de produzir pensamento coletivo, ideia essa que nos aproxima das origens da própria palavra. Antes de se transformar em instituição, a escola estava associada ao tempo dedicado à reflexão, à conversa, contemplação e construção coletiva de conhecimento. Sua razão de existir não era preparar alguém para uma função específica, mas criar condições para que as pessoas pudessem compreender melhor a si mesmas, aos outros e ao mundo que compartilhavam.
Quando pensamos a escola como verbo, algumas perguntas mudam de lugar: a questão deixa de ser apenas o que as crianças estão aprendendo e passa a incluir como estão aprendendo a viver juntas. Deixa de ser apenas quais conteúdos dominam e passa a incluir como escutam, como dialogam, como lidam com diferenças e como constroem sentidos coletivamente.
Uma escola que se organiza a partir dessa perspectiva não está preocupada apenas em produzir desempenho, mas produzir encontros. É um espaço que reconhece a palavra como algo que circula, que entende a escuta como uma forma de participação e que valoriza a dúvida tanto quanto a resposta. Que compreende que pensar não é repetir ideias prontas, mas criar relações entre experiências, conhecimentos e pontos de vista diferentes. É justamente isso que está faltando em um tempo marcado por opiniões rápidas, certezas instantâneas e disputas permanentes por atenção.
A escola que sonhamos está justamente aí: uma escola que tenha a coragem de Nietzsche para questionar certezas, a inquietação de Foucault para investigar as estruturas que organizam nossas vidas, a potência criativa de Deleuze para criar novas conexões e a poesia de Manoel de Barros para encontrar valor naquilo que costuma passar despercebido. Uma escola onde pensar seja um ato coletivo, aprender seja uma forma de encontro e educar seja a construção permanente de uma vida comum.


