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QUANDO O PASSADO TOCA NO FONE DE OUVIDO

  • 12 de jun.
  • 3 min de leitura

Por muito tempo, a música esteve ligada ao tempo em que era produzida. Cada geração tinha suas bandas, seus artistas, seus discos e suas referências. A música ajudava a marcar épocas, bastava ouvir algumas notas para saber se estávamos nos anos 1960, 1980 ou 2000. No entanto, algo diferente parece estar acontecendo.

 

Um estudo recente mostrou que jovens entre 13 e 24 anos estão ouvindo cada vez mais músicas lançadas antes de seu nascimento. Os anos 90 se tornaram, particularmente, populares, e artistas como Radiohead, Nirvana e Imogen Heap vêm encontrando novos públicos décadas depois de terem gravado seus maiores sucessos. Ao mesmo tempo, outra pesquisa sugere que a música ocidental atingiu um pico de complexidade por volta dos anos 60 e vem se tornando, progressivamente, mais simples em diversos aspectos desde então. Confesso que já havia percebido isso. As duas notícias não falam exatamente da mesma coisa, mas colocam lado a lado uma pergunta interessante: o que faz uma música atravessar gerações?

 

Vivemos na época da maior produção musical da história, nunca foi tão fácil gravar, distribuir e ouvir música. Milhões de novas faixas chegam às plataformas todos os anos. A impressão era que essa abundância faria o presente dominar completamente nossa atenção, mas o que aconteceu foi quase o contrário: quanto maior se tornou o catálogo disponível, mais fácil ficou voltar ao passado.

 

No século passado (tão estranho pensar assim!), ouvir música era uma atividade limitada pela tecnologia: o rádio tocava uma seleção reduzida e a televisão apresentava apenas alguns artistas. Descobrir uma música antiga não era fácil, exigia esforço. Hoje, uma gravação de sessenta anos atrás está tão próxima quanto uma lançada nesta manhã. Elas aparecem lado a lado na mesma busca, na mesma playlist e no mesmo algoritmo. Isso muda completamente a forma como a cultura circula. Uma música dos anos 90 já não depende de uma rádio especializada para encontrar novos ouvintes, pode reaparecer porque foi usada em uma série ou porque alguém simplesmente decidiu compartilhá-la em uma rede social.

 

Talvez nenhum exemplo seja mais emblemático do que Stranger Things. Quando a série utilizou "Running Up That Hill", de Kate Bush, uma canção lançada em 1985, a música voltou às paradas mundiais quase quarenta anos depois. Milhões de jovens ouviram a faixa pela primeira vez como se fosse uma novidade. O mesmo aconteceu com Metallica, The Cure, Fleetwood Mac e tantos outros artistas que ganharam novas audiências graças a filmes, séries, vídeos virais e plataformas digitais.

 

A saudosa MTV ajudou a definir o imaginário musical dos anos 90. Quem cresceu naquela época costumava esperar o horário em que um videoclipe seria exibido. Saudades dessa espera... Hoje, a lógica é inversa, não existe mais uma programação comum, pois cada pessoa constrói seu próprio canal de música, alimentado por algoritmos, recomendações e compartilhamentos. Curiosamente, essa liberdade não nos afastou do passado, mas permitiu que ele voltasse a circular com mais intensidade.

 

Percebo um componente emocional nessa história. A indústria do entretenimento descobriu o valor da nostalgia. Filmes retornam, séries retornam, personagens e marcas também. Já reparou? E a música não ficaria fora desse movimento, pois tem uma capacidade particular de transportar pessoas para momentos específicos da vida, afinal, uma canção pode funcionar como uma máquina do tempo. Agora, o mais interessante é que essa nostalgia já não pertence apenas a quem viveu determinada época, pois nossos filhos estão ouvindo as nossas músicas. Os adolescentes estão conhecendo bandas que fizeram sucesso décadas antes de nascerem. Muitos jovens estão comprando discos de vinil e até CDs, formatos que pareciam destinados aos museus. Existe algo curioso nisso tudo: em uma época marcada pela velocidade, cresce também o interesse por objetos, sons e referências que carregam uma sensação de permanência.

 

Talvez estejamos entrando em uma nova fase da cultura. Por muito tempo, as gerações foram definidas, principalmente, pelas novidades que consumiam. Hoje, parecem ser definidas pela forma como combinam referências de diferentes períodos. Um adolescente pode ouvir um lançamento de hoje, uma banda dos anos 1990 e uma gravação dos anos 1960 na mesma tarde. Para ele, todas pertencem ao mesmo catálogo e estão igualmente disponíveis.

 

Por décadas, a cultura caminhou em direção ao futuro, agora, parece se mover em várias direções ao mesmo tempo. E, enquanto seguimos produzindo mais música do que nunca, parte dos nossos ouvidos continua voltada para canções que atravessaram o tempo e encontraram uma nova geração disposta a escutá-las. Que bom!

 
 
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