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OS ESPAÇOS DA INFÂNCIA

  • Marcelle Berton
  • 3 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

A infância acontece no encontro entre os lugares. Ela não cabe num só espaço, porque é movimento, travessia, passagem. A criança não vive separando o que é casa, o que é escola, o que é rua, tudo para ela é mundo. Ela leva o quintal para a sala, o rastro da escola para o lar, a poeira da rua para o pensamento. A infância mistura territórios, porque é feita de contaminações.


E, talvez, o maior desafio da educação contemporânea seja justamente devolver à infância essa liberdade de circular, de fazer do espaço uma experiência, e não uma fronteira.

 

Durante muito tempo, acreditamos que proteger a infância era confiná-la. Criamos muros, portões, condomínios, horários, vigilâncias. Trocamos a rua pela tela, a aventura pela segurança, o imprevisto pelo controle. Mas uma infância sem risco é também uma infância sem descoberta. Quando os espaços se tornam previsíveis demais, o pensamento adormece. A criança precisa do mundo, do vento, do fora. Precisa se perder um pouco para se encontrar. Precisa experimentar o que está além das paredes. A infância é o tempo do corpo, e o corpo aprende quando se move, quando toca, quando se mistura.

 

A casa é o primeiro espaço da infância, o lugar do afeto, do cuidado, da presença. É ali que a criança encontra o ritmo do corpo, o som das vozes, o cheiro da vida. Mas a casa, sozinha, não basta. Ela protege, mas também limita. É na escola que a criança começa a se afastar do colo e a descobrir o outro. A escola é o espaço da travessia: entre o íntimo e o público, entre o conhecido e o estranho, entre o individual e o coletivo. Quando a escola entende seu papel de passagem, deixa de imitar o lar e se torna ponte. É ali que a criança aprende a existir entre mundos, sem pertencer totalmente a algum.

 

E há, ainda, a rua, o território da experiência plena. A rua é o espaço onde a infância se faz política, porque, nela, a criança existe entre desconhecidos, negocia com o acaso, experimenta o coletivo. A rua ensina a lidar com a diferença, com o limite, com o outro que não se escolhe. É o lugar onde o mundo se mostra como ele é: desordenado, ruidoso, múltiplo. Quando a infância perde a rua, perde também parte da sua potência. A rua era o laboratório do inesperado, e a escola, muitas vezes, tenta compensar essa ausência com metodologias artificiais. Mas o que a rua ensina não cabe em roteiro — é vida que acontece.

 

A escola pode, no entanto, recuperar algo da rua. Pode transformar seus espaços em territórios de encontro e de invenção. Pode abrir-se à cidade, caminhar, explorar, observar. Pode fazer da praça uma extensão da sala, do mercado uma aula, do bairro um texto. A escola viva é aquela que se deixa atravessar pelo mundo. Quando ela abre seus portões, amplia a infância. E, quando amplia a infância, amplia também a si mesma.

 

A infância precisa do lar que acolhe, da escola que media e da rua que provoca.

São três dimensões de uma mesma experiência: a do pertencimento, a do encontro e a da descoberta. Quando esses espaços se comunicam, a criança cresce inteira. Quando se isolam, a infância se fragmenta.

A educação é o lugar onde esses territórios se encontram. O professor é o mediador dessa travessia: quem acolhe o que vem de casa, quem traduz o que vem da rua, quem transforma o espaço escolar em território de vida.

 

Cuidar dos espaços da infância é cuidar das suas possibilidades de existir. É garantir que ela possa viver o dentro e o fora, o íntimo e o público, o seguro e o incerto. É permitir que o mundo continue sendo campo de experimentação, e não apenas de vigilância. Educar, nesse sentido, é um ato de abertura: abrir janelas, portões, caminhos. É entender que os espaços não se somam, se atravessam. A infância precisa poder circular entre eles, misturar o que aprende em cada um, criar o seu próprio mapa.

 

A infância é sempre movimento. Onde há fronteira, ela inventa passagem. Onde há muro, procura fresta. Onde há limite, desenha ponte. E, talvez, o papel mais bonito da escola seja esse: manter o mundo aberto para que a infância continue a atravessá-lo.

 
 
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